Vida

        Uma Biografia na História

         Escultor, sociólogo, ex-aluno de pintura de Guignard em Belo Horizonte, Guido Rocha morou em Genebra, depois de passar por experiências alucinantes, como ser preso na Bolívia, torturado no Brasil ou “viver” 41 dias a pão , água e terror no Estádio Nacional do Chile, junto com outros milhares de prisioneiros, logo depois do golpe que derrubou Allende.

        O que há de notável em sua experiência, no entanto, é que esse artista conseguiu nesses anos realizar um trabalho de impressionante vitalidade, “concentrando a memória”, estabeleceu um traço esclarecedor entre sua tragédia pessoal e as várias tragédias nacionais de que foi testemunha.

    

       Sua temática, a que ele vem se mantendo fiel ao longo desses anos, é Cristo enquanto personagem torturado, mas rebelde, que nas suas esculturas adquire feição inquietante e denunciadora. Esta imagem, contudo, parece muitas vezes grotesca à consciência estética e politicamente conservadora da Europa ou de seus representantes espirituais na América latina. Mas ele é bem real e vivo como encarnação da tragédia humana, vivida de maneira historicamente exemplar em todo o nosso terceiro mundo. (Regis A. D. Gonçalves)

Guido e sua primeira mulher Vanda

Guido e sua obra no Templo das Religiões em Genebra

        O Compromisso da Volta

         Guido Rocha é  um artista respeitado na Europa e sobrevive dignamente de sua arte. No entanto, como sabem todos os exilados, e como revela também no texto escrito para catálogo da exposição de Boston, “o exílio, à diferença da imigração permanente, sempre está prevendo seu término, de modo mais ativo que passivo”. Por isso Guido preparou sua volta ao Brasil. E fala assim de seu retorno:

        “Quero voltar para lutar pelas minhas idéias, minha liberdade, pelos meus sentimentos, que estou seguro serem os mesmos da humanidade em seu conjunto. O núcleo em torno do qual quero trabalhar é a arte. Fazer escultura, caricatura, você sabe. Isso aí implica em sociologia, semiologia, filosofia, etc. É por aí que estou com as patas enterradas”.

 

Guido chegando do exílio (Suíça)

Guido em estudos e reflexões

Guido e a ativista Inês H.Romeu .

"Antes de haver a luta armada, ela(Inês), Beto (assassinado pela ditadura) e eu dirigíamos a
Organização Marxista Política Operaria- POLUA, que acabou dividindo-se em VAR, VPR, POC etc. O Beto foi para a VAR, ela(Inês) engajou-se na VPR , e eu preferi fazer parte de um grupo que lutava pela Constituinte, tentando fazer o pessoal abandonar as armas.
Quando a maioria dos companheiros ou morreram ou foram para o cárcere, meu grupo resolveu exilar-se no Chile..."
 

Guido Rocha nasceu na cidade do Serro em Minas Gerais em 22 de setembro de 1933.

        A Descoberta do Cristo

         Ele acabava de passar pela dolorosa experiência de dois anos de prisão, torturas e um julgamento na auditoria militar de Juiz de fora, como incurso na Lei de Segurança Nacional. O resultado do processo foi a absolvição, pois não se conseguiu provar nenhuma vinculação sua com qualquer organização político-militar que atuava na época.

        Formado em Sociologia, Guido Rocha trabalhou antes de 1964 para o governo de Goiás, na administração Mauro Borges, quando teve um contato profundo com a realidade camponesa. Algum tempo depois, antes de sua prisão, morou no Rio de Janeiro, fazendo artesanato para sobreviver. Foi quando se interessou pela figura de Cristo, começando então a esculpir pequenas peças a partir de pesquisas com um novo material plástico.

        “Minha mulher acrescentava alguns detalhes aos corpos das estatuetas que lhes conferiam aspecto profundamente trágico. Esses detalhes consistiam em toques de pintura vermelha e amarela sobre a matéria plástica. A gente tinha a impressão de que as ancas, as costas, o coração e os pulmões estavam à mostra. Então eu me pus a detalhar o rosto e cada vez mais o crucificado tomava um aspecto rebelde”.

Guido e sua atual mulher Laura

Guido e seu neto Thiago

        O Cristo Torturado

         Pouco tempo depois, sua mulher Vanda seguiu para o Chile, onde viveria mais dois anos à espera do companheiro. Este, sem documentos para a viagem, tentou chegar lá por terra, através da Bolívia. Contudo, ao pedir asilo numa unidade militar boliviana da fronteira, foi devolvido às autoridades brasileiras, no auge da repressão à guerrilha urbana. Soube-se depois que o quartel boliviano era um dos núcleos da conspiração contra o governo popular do general Torres, derrubado pouco depois.

        A prisão e a tortura deixaram marcas profundas no artista. Ele conta: Em 1971 fui preso e torturado. Por ironia da sorte, um dos torturadores escondia-se sob o pseudônimo de “Jesus Cristo”. Com a sua barba e seus cabelos longos ele interpretava, à perfeição, o papel do Cristo tal qual a sociedade de consumo o havia criado. A partir de então, todos os cristos que fiz apresentam caracteres faciais que são simultâneamente as expressões dos companheiros assassinados ou torturados, assim como dos rostos dos camponeses pobres que conheci”.

        Um Novo Exílio

         Por um desses azares do destino que têm feito a dramática trajetória de Guido Rocha parecer às vezes o entrecho rocambolesco de uma novela, a escultura desapareceu e só foi reencontrada meses depois, em Genebra, quando então o Aga Khan promoveu uma cerimônia pública para recebê-la, o que contribuiu para tornar o artista conhecido. Como bolsista do governo suíço, ele foi estudar escultura, com ajuda de Claude Raymond, com Gabriel Stanulis, na Escola Superior de Artes Visuais de Genebra.

        Ali desenvolveu sua técnica e aperfeiçoou-se na pesquisa de novos materiais. Mas a temática central de sua obra continuava a mesma, sempre reportada à realidade latino-americana. Guido ilustra suas idéias, contando um episódio da conquista do Peru em que um chefe inca, olhando um crucifixo, exclama desafiadoramente e diante de Pizarro: “Que Deus é esse que se deixa dominar tão docilmente por suas criaturas?”, e recebe em resposta a descarga de fogo ordenada pelo conquistador, sob os gritos de “heresia!” do padre que o acompanhava.

        “Os povos latino-americanos nem sempre reagiam com tanta firmeza à imposição de valores da civilização ocidental e cristã, afirma ele. “Entretanto, apesar das aparências, a idéia de um filho de Deus dócil e submisso sempre foi recusada pelos oprimidos do continente”.

Guido na Onu

A Universalidade da Obra de Guido

A Queda no Chile: Uma Identificação

        Depois de absolvido e libertado, no Brasil pelo Tribunal de Justiça Militar, Guido fez a exposição de Belo Horizonte e, com o dinheiro arrecadado, pode viajar para o Chile. Para uma tranquilidade de poucos meses. “Comecei a preparar uma exposição de Cristos para o Museu Nacional de Belas Artes. A exposição estava marcada para 15 de novembro de 1973. A 17 de setembro, seis dias após o golpe de estado, minha mulher e eu fomos presos e internados durante 41 dias no campo de concentração em que se transformou o Estádio Nacional de Santiago”.

        Começava para ele um novo período de horror, vivido também por milhares de refugiados latino-americanos acolhidos pelo governo da Unidade Popular. “De novo eu pude ver as marcas de sevícias sobre os corpos de meus companheiros, e à noite ouvir as rajadas de metralhadoras que abatiam aqueles considerados perigosos para o novo regime. Aos domingos, éramos obrigados a assistir ao sermão de um padre que prometia sutilmente o inferno aos revoltados e o céu aos arrependidos”.

        O exilado brasileiro teve outra sorte: “Quanto a nós, estrangeiros não era nem o inferno nem o paraíso que nos separava”, relata, “mas o convento de São Francisco Xavier, onde os refugiados foram recolhidos pelo Alto Comissariado para refugiados, um orgão da ONU”. Á espera de um destino, dentro do convento, Guido esculpiu um dos seus Cristos que foi oferecido, em nome de todos os refugiados, ao Alto Comissário da Onu para Assuntos de Refugiados, o Sr. Aga Khan. O escultor e sua mulher acabaram seguindo para a Suiça.

Guido em Genebra

        Na Europa, Um Artista do Terceiro Mundo

         E acrescenta: “Os artistas latino-americanos não se  mantiveram indiferentes, durante os cinco séculos que no separam da descoberta da América, à hipocrisia de alguns e à sede de verdade da grande maioria. Ao contrário, que se desenrola no continente e que, no nível das idéias e dos valores espirituais, têm o Cristo por personagem central”.

        Em 1974, Guido produziu um Cristo enorme, de dois metros e quarenta centímetros de altura, que hoje se encontra na sede da Assembléia das Igrejas, em Nairobi, no Quênia. Há Cristos seus nas sedes da ONU, na Liga dos Direitos do Homem e da União cristã, em Genebra; e na sede da Anistia Internacional, em Lausanne.

        Em 1976, fez uma exposição individual, ainda sob o título, “A Crucificação do Homem”, na galeria do centro de Reencontro de Cartigny, em Genebra. Em 1977, participou da coletiva “Artistas no Exílio”, em Boston, tendo sua escultura de Cristo escolhida para ilustrar o cartaz, o catálogo e demais peças promocionais da mostra. Essa mesma escultura foi ali roubada, acrescentando uma nota sensacional à exposição, que já despera a reação de cubanos anti-castristas. Nos Estados Unidos, expôs ainda na “Fondo del Sol Gallery”, de Washington.

 

      O Futuro no Brasil

         “Quero voltar para, em termos pessoais , lutar pelo exercício de minha liberdade, mesmo se tiver de correr riscos. Acho que isso é fundamental: não nos deixarmos envolver pela “ideologia da segurança”. A intimidação é uma arma fundamental nas mãos dos construtores do “robô alegre”, como sempre o foi nas mãos dos donos do poder”.

 

Guido agraciado com o título de "Cidadão Honorário" da cidade de Belo Horizonte , Minas Gerais, Brasil  em 1995.

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Belo Horizonte, Minas Gerais , Brasil, 15 de dezembro de 2003