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A prisão e a tortura deixaram marcas profundas no artista. Ele conta: Em 1971 fui preso e torturado. Por ironia da sorte, um dos torturadores escondia-se sob o pseudônimo de “Jesus Cristo”. Com a sua barba e seus cabelos longos ele interpretava, à perfeição, o papel do Cristo tal qual a sociedade de consumo o havia criado. A partir de então, todos os cristos que fiz apresentam caracteres faciais que são simultaneamente as expressões dos companheiros assassinados ou torturados, assim como dos rostos dos camponeses pobres que conheci”.

 

        Uma Arte Escandalosa 

        Os Cristos de Guido Rocha expostos ao público pela primeira vez numa galeria de arte de Belo Horizonte, em 1973, causaram grande impacto. As figuras, extremamente distorcidas, gritavam na cruz sua condição de torturados, reproduzindo a situação do homem submetido ao extremo martírio. Contudo, guardavam os traços de sua dignidade, presente numa expressão sempre rebelde. A exposição levou o título “A Crucificação do Homem”.

     Foi um escândalo atirado à face do “bom gosto”. O artista denunciava a imagem adocicada de um “Cristo-adorno, modelado em ouro e prata, a presidir a opulência dos abastados”, conforme afirmou então o escritor Fábio Lucas no catálogo de apresentação da mostra.”Eu não tenho religião”, afirma o artista. “O crucificado que eu esculpo não é nem mais nem menos que um homem. No entanto, para alguns cristãos, minhas esculturas estão muito mais próximas do verdadeiro Cristo do que as tradicionais”. 

     
“De novo eu pude ver as marcas de sevícias sobre os corpos de meus companheiros, e à noite ouvir as rajadas de metralhadoras que abatiam aqueles considerados perigosos para o novo regime. Aos domingos, éramos obrigados a assistir ao sermão de um padre que prometia sutilmente o inferno aos revoltados e o céu aos arrependidos”.
“Entretanto, apesar das aparências, a idéia de um filho de Deus dócil e submisso sempre foi recusada pelos oprimidos do continente”.

 

  “Os artistas latino-americanos não se  mantiveram indiferentes, durante os cinco séculos que nos separam da descoberta da América, à hipocrisia de alguns e à sede de verdade da grande maioria. Ao contrário, que se desenrola no continente e que, no nível das idéias e dos valores espirituais, têm o Cristo por personagem central”.

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Belo Horizonte, Minas Gerais , Brasil, 15 de dezembro de 2003